Meu filho enxerga bem, mas tem dificuldade para ler. Pode ser a visão?
A criança passa no teste de acuidade visual, enxerga letras pequenas e aparentemente não precisa de óculos.
Mesmo assim, durante a leitura, perde a linha, reclama de desconforto, aproxima muito o texto, cansa rapidamente ou evita atividades que exigem leitura por períodos mais longos.
Então surge uma dúvida bastante comum entre pais e responsáveis:
É possível uma criança enxergar bem e ainda existir alguma questão visual que mereça investigação?
Sim.
Mas existe uma distinção muito importante: problemas oculares podem coexistir com dificuldades escolares, porém isso não significa que a visão seja a causa de dislexia ou de um transtorno de aprendizagem.
Entender essa diferença ajuda a evitar tanto alterações visuais não diagnosticadas quanto tratamentos que prometem resultados sem respaldo científico.
O que significa enxergar 20/20?
A acuidade visual mede principalmente a capacidade de distinguir detalhes em determinada distância.
É uma informação muito importante durante um exame oftalmológico, mas o funcionamento do sistema visual não se resume a essa medida.
Durante a leitura, os olhos precisam realizar diferentes tarefas ao mesmo tempo. Eles ajustam o foco para perto, movimentam-se ao longo das linhas e precisam trabalhar de maneira coordenada.
Por isso, uma criança pode apresentar boa acuidade visual e, ainda assim, possuir alguma alteração ocular específica capaz de causar sintomas durante atividades próximas.
Isso não significa automaticamente que exista um “transtorno de processamento visual”.
Significa que uma avaliação oftalmológica pode ajudar a identificar se existe algum componente ocular associado aos sintomas.
Quais sintomas merecem atenção?
Pais, responsáveis e professores podem observar alguns comportamentos durante atividades de leitura ou estudo, como:
• Desconforto ocular durante a leitura;
• Visão dupla;
• Dor de cabeça associada a atividades próximas;
• Fechar um dos olhos para ler;
• Aproximar excessivamente o material;
• Cansaço visual depois de longos períodos de atividade próxima;
• Desvio de um dos olhos;
• Queixas de visão embaçada.
Esses sinais, isoladamente, não determinam um diagnóstico.
Eles indicam que pode ser importante investigar o que está acontecendo.
Ler exige mais do que enxergar letras
A leitura é uma atividade complexa.
Enquanto lemos, os olhos realizam pequenos movimentos chamados sacadas, responsáveis por deslocar o olhar ao longo das palavras e das linhas.
Também é necessário manter um alinhamento adequado entre os olhos e ajustar continuamente o foco para a distância do texto.
Algumas alterações da visão binocular podem provocar desconforto ou dificuldade durante tarefas próximas.
Um exemplo é a insuficiência de convergência, condição em que existe dificuldade para manter os olhos adequadamente coordenados durante determinadas atividades realizadas de perto.
Esse tipo de alteração possui critérios próprios de diagnóstico e precisa ser identificado por meio de avaliação adequada.
Por isso, é diferente de afirmar genericamente que uma criança “não consegue processar a visão”.
Processamento visual e dificuldade escolar são a mesma coisa?
Não.
“Processamento visual” é uma expressão ampla e pode assumir significados diferentes dependendo da área profissional e do contexto em que é utilizada.
O cérebro realmente precisa interpretar as informações recebidas pelos olhos, mas as dificuldades escolares podem ter diversas origens.
Linguagem, atenção, memória, desenvolvimento, ambiente, metodologia de ensino e diferentes condições neurocognitivas podem participar de uma dificuldade de aprendizagem.
Por esse motivo, uma investigação adequada precisa considerar diferentes possibilidades e não atribuir automaticamente toda dificuldade escolar à visão.
Visão causa dislexia?
Esse é um tema que exige bastante cuidado.
Entidades médicas como a American Academy of Pediatrics, a American Academy of Ophthalmology e a American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus sustentam que problemas visuais não são considerados a causa da dislexia primária ou dos transtornos de aprendizagem.
Alterações oculares podem existir ao mesmo tempo que uma dificuldade de aprendizagem e podem tornar algumas tarefas visualmente desconfortáveis.
Entretanto, tratar uma alteração ocular não significa tratar a origem da dislexia.
Essa diferenciação é importante principalmente para a criança.
Quando existe uma dificuldade real de leitura ou aprendizagem, avaliações pedagógicas, fonoaudiológicas, neuropsicológicas ou médicas não devem ser adiadas porque todos os sintomas foram atribuídos exclusivamente aos olhos.
Então por que avaliar os olhos?
Porque a criança pode apresentar mais de uma condição ao mesmo tempo.
Ela pode possuir uma dificuldade específica de aprendizagem e também ter miopia.
Pode apresentar dificuldade de leitura e, ao mesmo tempo, possuir estrabismo.
Pode sentir desconforto durante atividades próximas e também precisar de investigação em outras áreas.
Identificar e corrigir uma alteração ocular é importante para proporcionar as melhores condições visuais possíveis para a criança.
O cuidado está em não prometer que a correção de um problema ocular tratará automaticamente uma condição neurocognitiva que possui outra origem.
O que acontece em uma avaliação oftalmológica?
A avaliação varia conforme a idade da criança, os sintomas apresentados e o histórico clínico.
O oftalmologista pode avaliar aspectos como:
• Acuidade visual;
• Refração e necessidade de óculos;
• Alinhamento dos olhos;
• Motilidade ocular;
• Saúde das estruturas oculares;
• Acomodação;
• Aspectos da visão binocular, quando clinicamente indicados.
A história relatada pela família também é muito importante.
Algumas perguntas podem ajudar o médico a compreender melhor os sintomas:
Quando o desconforto aparece?
Acontece somente durante a leitura?
Também ocorre ao assistir televisão ou utilizar telas?
A criança relata visão dupla?
Sente dor de cabeça?
Costuma fechar um dos olhos?
Existe histórico de estrabismo?
Já utiliza óculos?
Quanto tempo consegue permanecer em uma atividade próxima antes de começar a sentir desconforto?
Essas informações ajudam o oftalmologista a diferenciar diferentes possibilidades e decidir quais aspectos precisam ser investigados.
E os filtros ou lentes coloridas?
Esse é outro assunto que merece cautela.
Filtros e lentes coloridas são divulgados em alguns contextos como alternativas para dificuldades de leitura e aprendizagem.
Entretanto, existe controvérsia científica importante sobre o tema.
Termos utilizados nessa área, como síndrome de Irlen, estresse visual ou Meares-Irlen, não são necessariamente equivalentes e podem ser utilizados de maneiras diferentes.
Além disso, entidades médicas não recomendam lentes coloridas ou terapia visual como tratamento para a causa da dislexia ou de transtornos de aprendizagem.
Isso não significa ignorar sintomas visuais relatados pela criança.
Significa investigar essas queixas adequadamente sem transformar hipóteses controversas em diagnósticos definitivos.
A criança deve ser avaliada apenas pelo oftalmologista?
Nem sempre.
Quando existe dificuldade escolar, muitas vezes a abordagem precisa ser multidisciplinar.
O papel do oftalmologista é avaliar as questões relacionadas aos olhos e à visão.
Outros profissionais podem ser necessários de acordo com os sintomas e com as dificuldades apresentadas pela criança.
Dependendo do caso, a investigação pode envolver profissionais de pediatria, fonoaudiologia, neuropsicologia, neurologia, psicopedagogia e a própria equipe escolar.
A vantagem de uma abordagem multidisciplinar é evitar que uma única área tente explicar sozinha um problema que pode possuir diferentes componentes.
Processamento visual infantil e avaliação oftalmológica em Brasília
Na Blink Oftalmologia, a Dra. Karla Delalíbera atua nas áreas de oftalmopediatria, estrabismo e avaliação de questões relacionadas à função visual infantil.
Quando uma família procura atendimento porque a criança apresenta dificuldade de leitura, desconforto ao estudar ou alguma suspeita relacionada ao processamento visual, o objetivo da avaliação oftalmológica é investigar se existe alguma alteração ocular ou funcional visual clinicamente identificável.
Quando necessário, a criança também pode ser orientada a realizar avaliações complementares com profissionais de outras áreas.
A consulta não deve partir da ideia de que todo problema de aprendizagem tem origem ocular.
A pergunta mais importante é:
Existe alguma condição visual contribuindo para os sintomas apresentados por esta criança?
É justamente essa investigação individualizada que permite separar alterações oculares de outras causas de dificuldade de leitura e oferecer uma orientação mais adequada para cada paciente.
Perguntas frequentes
Uma criança pode enxergar 20/20 e ainda ter algum problema visual?
Sim. A acuidade visual representa apenas uma parte do funcionamento do sistema visual. Alterações relacionadas ao alinhamento dos olhos ou à visão binocular, por exemplo, podem exigir avaliações específicas.
Problema de visão causa dislexia?
As principais entidades médicas não consideram os problemas visuais como causa da dislexia primária. Alterações oculares podem coexistir com a dislexia, mas são condições diferentes.
Terapia visual cura dislexia?
Não existem evidências científicas suficientes para indicar terapia visual como tratamento da causa da dislexia ou de transtornos de aprendizagem.
Meu filho pula linhas durante a leitura. Precisa procurar um oftalmologista?
Pular linhas isoladamente não permite estabelecer um diagnóstico. Entretanto, se esse comportamento é recorrente ou aparece acompanhado de desconforto ocular, visão dupla, dor de cabeça, embaçamento ou outros sintomas, uma avaliação oftalmológica pode ser indicada para excluir alterações oculares.
Óculos resolvem dificuldade de leitura?
Se a criança possui um erro refrativo, como miopia, hipermetropia ou astigmatismo, os óculos podem corrigir essa alteração.
Isso não significa que os óculos tratem automaticamente uma dificuldade de aprendizagem que tenha outra origem.
Processamento visual é a mesma coisa que acuidade visual?
Não.
A acuidade visual mede principalmente a capacidade de perceber detalhes. O processamento visual envolve a interpretação das informações visuais pelo sistema nervoso e representa um conceito mais amplo.
Quando procurar avaliação oftalmológica?
Se seu filho apresenta desconforto visual, visão dupla, dificuldade para manter atividades próximas, queixas de embaçamento ou outros sintomas durante a leitura, uma avaliação oftalmológica pode ajudar a identificar se existe algum componente ocular associado.
Na Blink Oftalmologia, a investigação é realizada de maneira individualizada, respeitando os limites da oftalmologia e considerando, quando necessário, a participação de outros profissionais no acompanhamento da criança.
Agende uma avaliação com a equipe de oftalmopediatria da Blink Oftalmologia em Brasília.